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OS DESAFIOS DO SÉCULO XXI E A EDUCAÇÃO DO PRINCIPIANTE ESPÍRITA

“Ai do mundo, por causa dos escândalos.

Porque é necessário que sucedam escândalos,

mais ai daquele homem por quem vem o escândalo”

Jesus (Mateus, XVIII:7)

Muito tem se falado no tempo de transição que atravessamos atualmente e suas inevitáveis implicações na educação do homem moderno, que sofre uma modificação de ideias e de consciência, tornando-se cada vez mais globalizado e compenetrado de seu papel na transformação da sociedade. Porém, não raro, as pessoas mostram-se perdidas quando são chamadas à transformação moral necessária para o enfrentamento dos desafios atuais e para a manutenção do equilíbrio mental, essencial para a saúde do Espírito.

Mortes coletivas, catástrofes naturais, violência, inversão dos valores familiares e morais, aturdem a todos e batem à nossa porta, convidando-nos à reflexão e à tomada de atitudes positivas, à modificação de antigos comportamentos prejudiciais, que nos darão condições de fortalecimento para as crises que virão, ora como provas, ora nos mecanismos de ação e reação, causa e efeito, até que a Terra transforme-se em mundo de regeneração.

Confrontado pelos pesares da vida, aquele que adentra, pela primeira vez, a casa espírita precisa de socorro espiritual e, muitas vezes, também do recurso material.

Depois de algum tempo, atende ao chamado dos mentores espirituais, que o incitam a buscar as virtudes para, enfim, encontrar a paz interior e a tão almejada felicidade relativa, não só possível, mas certa, pois a felicidade plena é o destino de todos nós.

E quais são os desafios que o principiante espírita precisa enfrentar para vencer suas deficiências morais?

Os desafios da atualidade e o Espiritismo

Saber conviver em sociedade é uma arte que passa pela indulgência, paciência, renúncia, enfim, pela caridade, que é o amor em ação. Arte que ainda não aprendemos, posto que agimos mais segundo os nossos próprios interesses e na posição defensiva, condicionando o nosso bem proceder para com os semelhantes, se esses primeiramente procedem bem para conosco. Aí está uma das grandes inversões de valores que nos causam muitas lágrimas – privilegiamos o egoísmo, sem dar-nos conta do quanto ele nos gera sofrimento.

O Espírito Fénelon esclarece-nos na questão 917 de O Livro dos Espíritos que

“(…) É o contato que o homem experimenta do egoísmo dos outros que o torna geralmente egoísta, porque sente a necessidade de se por na defensiva. Vendo que os outros pensam em si mesmos e não nele é levado a se ocupar de si mesmo mais que dos outros (…)”. Na mesma questão, Fénelon explica-nos a causa da grande dificuldade que o principiante espírita sente, muitas vezes, quando se dedica à mudança interior: “(…)

Em face do atual desdobramento do egoísmo é necessária uma verdadeira virtude para abdicar da própria personalidade em proveito dos outros que em geral não o reconhecem”.

Verdadeira praga social, como bem definiu Kardec, o egoísmo origina as causas de nossos males. “Quando compreender bem que o egoísmo é uma dessas causas, aquela que engendra o orgulho, a ambição, a cupidez, a inveja, o ódio, o ciúme, dos quais a todo momento ele (o homem) é vítima, que leva a perturbação a todas as relações sociais, provoca as dissensões, destrói a confiança (…), então ele compreenderá também que esse vício é incompatível com a sua própria felicidade.” (L.E questão 917)

Vícios instalam-se no âmago do Espírito como falsas necessidades que geram dependência orgânica e psíquica e, freqüentemente, também obsessões de difícil trato.

Muitos que procuram a casa espírita vem pelos diversos vícios que afligem nossa sociedade contemporânea.

O consumo de tóxicos e de álcool tem aniquilado vidas e destruído famílias ao longo dos séculos e hoje o homem moderno acorda para a solução de problemas tão graves.

A sexolatria deturpa a destinação sublime da energia sexual, fonte criadora de todo o Universo, propiciando quadros dramáticos de vampirismo espiritual.

A nova geração, que já começou a atuar no mundo, não comporta mais tais desequilíbrios.

Muitos alegam a fuga à realidade como a causa para seus desatinos. Contudo, a nossa verdadeira realidade é a do Espírito, plena, fulgurante e promissora, pois que é imortal. Não existe arrastamento irresistível, fatalidade; o que existe são Espíritos ainda deseducados para a vitória sobre suas paixões inferiores.

Os Espíritos respondem a Kardec em O Livro dos Espíritos que o homem poderia sempre vencer as suas más tendências “(…) e às vezes com pouco esforço; o que lhe falta é a vontade”. (Questão 909)

Certamente, podemos também abordar o materialismo como fonte de desilusão e, consequentemente, de dores morais. Felizmente, o materialismo é cada vez menos freqüente; porém, muitos que se dizem espiritualistas, agem como se não acreditassem em nada além do mundo material. E o que há de mais desolador do que a ideia do nada?

“Se não acreditamos em nada, dirigimos todos os nossos pensamentos para a vida presente. (…) Aí, essa preocupação exclusiva com o presente nos levará, naturalmente, a pensar antes de mais nada, em nós mesmos (…)” (Kardec,14). Inevitável, então, que passemos ao próximo passo da descrença: “(…) Vamos aproveitar e nos divertir o mais possível, a gozar o mais que pudermos porque, quando formos embora desta vida, tudo terminará também; vamos aproveitar depressa, porque não sabemos quanto isso vai durar; assim, também iremos tirar outra conclusão, que será um perigo para a sociedade:

vamos aproveitar, e cada um por si, pois felicidade neste mundo é dos mais espertos!” completa Kardec, em O Céu e O Inferno.

A decisão de aproveitar já para pensar depois, a inversão de valores, a desvalorização da vida, bem mais precioso que possuímos, podem desembocar em outro mal que enfrentamos e que assume imensas proporções: a violência. Como lidar com ela? Como explicá-la, dentro dos padrões da sociedade moderna? Por vezes, apresenta- se na ação impiedosa de Espíritos que parecem ter saído diretamente dos povos bárbaros da Antiguidade; em outras ocasiões, manifesta-se no desamor nas relações sociais, na desconsideração pelos mais velhos, na crueldade contra os animais, no desrespeito pelo meio ambiente, na incivilidade do dia-a- dia. Os que se conduzem dessa maneira vivem mais o mundo dos sentidos e dos instintos, apartados de tudo quanto diga respeito à Lei de Amor, buscando fortes emoções como meio de saciar seus desequilíbrios. Muitos que se veem atingidos por esse mal revoltam-se contra Deus e, quando não buscam vingança, porque a ideia já lhes é repulsiva, gostariam ainda de viver no tempo do “Olho por olho, dente por dente”.

Olhando além das aparentes injustiças e desigualdades, sabemos que cada um nasce no meio que lhe é mais apropriado para suas provas e expiações. Os que aparentemente encontram-se deslocados na sociedade, são Espíritos que estão tendo a oportunidade de se regenerarem, em contato com os mais adiantados. Tais criaturas são comuns a todas as sociedades mais adiantadas e sua presença é explicada “Da mesma maneira que numa árvore carregada de bons frutos existem os temporãos. Elas são, se quiseres, selvagens que só tem da civilização a aparência, lobos extraviados em meio de cordeiros. Os Espíritos de uma ordem inferior, muito atrasados, podem encarnar-se entre homens adiantados com a esperança de também se adiantarem”, dizem-nos os Espíritos na questão 755 de O Livro dos Espíritos. Oportunidade para os mais atrasados, prova e missão para os mais adiantados, oportunidade de exercitar a caridade, que deve extrapolar o campo da palavra ou das elaborações mentais daqueles que abraçam a doutrina espírita como opção de vida.

Campeiam ainda entre nós, como conseqüência dos desatinos, as diversas perturbações psíquicas e orgânicas que ganham panorama de epidemia mundial, como a depressão, ou ainda as neuroses, psicoses, tendências suicidas, etc. Todas residem “na desobediência constante às determinações da Lei de Deus” (Rizzini, 1993: 165). O corpo físico somente espelha aquilo que já está instalado no Espírito, ou seja, a doença é do Espírito e não do corpo.

Em meio a todas essas agitações sociais, encontramos de permeio as cada vez mais freqüentes mortes coletivas da atualidade. Sejam por acidentes ou por cataclismos naturais, tantas partidas coletivas de Espíritos tem assustado a sociedade do século XXI pelos desafios que impõem a todos. Inseridas na Lei de Destruição, as mortes coletivas nesses momentos de crise, em que todas as instituições mundiais passam por mudanças significativas, fazem parte do processo de transição moral.

Esses são alguns dos grandes desafios que motivam o principiante espírita a procurar o Espiritismo, em busca de respostas ou de auxílio para sua cura espiritual.

Desafios comuns a todos nós e próprios do momento de transição. Como nos relata o Espírito Manoel Philomeno de Miranda, antes de atingirmos o equilíbrio necessário para vivermos a Era do Espírito, “(…) a violência, a sensualidade, a abjeção, os escândalos, a corrupção atingirão níveis jamais pensados, alcançando o fundo do poço, enquanto as enfermidades degenerativas, os transtornos bipolares de conduta, as cardiopatias, os cânceres, os vícios e os desvarios sexuais clamarão por paz, pelo retorno à ética, à moral, ao equilíbrio (…)” (Franco, 2010: 37)

A proposta espírita: na educação, a solução

A verdadeira educação das gerações foi apontada por Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos (Questão 917), como a chave para o progresso moral da humanidade.

Educação que não se pode confundir com instrução, erro em que a maioria incorre.

Pedro de Camargo diferencia assim a instrução da educação: “(…) A educação abrange a instrução, mas pode haver instrução desacompanhada de educação. A instrução relaciona-se com o intelecto: a educação com o caráter (…) Educar é desenvolver os poderes do espírito, não só na aquisição do saber, como especialmente na formação e consolidação do caráter” (2005:63)

Mas, para que se chegue à verdadeira educação, é necessário que se instrua primeiramente: e é isso que aconselha Kardec a todos os iniciantes que buscam a convicção espírita. E, para chegar-se com segurança à convicção, o mestre lionês propõe o método exposto em O Livro dos Médiuns. Como ele nos diz, “há corações aflitos a aliviar, consolações a dispensar, desesperos a acalmar, reformas morais a operar” (2010:44).

Allan Kardec aponta como condição primordial a boa vontade aos iniciantes que querem instruir-se no Espiritismo. Depois, enumera as seguintes obras, para que se tenha os conhecimentos preliminares da Doutrina dos Espíritos: 1º) O que é o Espiritismo, “uma introdução que facilita o estudo mais profundo” (2010: 47); 2º) O Livro dos Espíritos, que contém toda a Filosofia e todas as consequências do Espiritismo; 3º) O Livro dos Médiuns, para orientar a prática do intercâmbio mediúnico e 4º) A Revista Espírita, coletânea variada e riquíssima de fatos, explicações teóricas e de trechos importantes de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns. Ele ainda aconselha ler tudo o que for publicado a respeito do Espiritismo ou, na impossibilidade disso (caso dos nossos dias atuais), que se leia o principal, nunca se limitando a um único autor. Logicamente, adicionamos a essa lista as demais obras básicas que compõe a codificação: O Evangelho Segundo o Espiritismo; O Céu e o Inferno e A Gênese, além de Obras Póstumas, obra de precioso valor, pois que contém textos importantes e depoimentos pessoais de Kardec.

Devidamente instruído, o principiante espírita deve educar-se para que atinja a felicidade relativa, característica de nosso mundo e finalidade do Espiritismo.

No antigo curso Preparatório, hoje O que é o Espiritismo da Feesp, observou-se, no decorrer dos anos, a necessidade de já se reservar uma parte da aula para a Reforma Íntima, para que a prática somente cresça à medida que o aluno avance nos demais cursos do ciclo básico da Casa.  Reforma íntima que conseguimos quando compreendemos e exemplificamos os ensinamentos de Jesus, tornados mais claros pelo Espiritismo.

O Espiritismo é, em seu âmago, a própria Educação. Não há como abraçar a doutrina espírita, aceitá-la inteiramente, sem educar o próprio ser. Bem compreendida e bem sentida, como nos diz Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no item 4 do capítulo XVII, conduz não apenas o iniciante, mas todos nós, a tornar-nos verdadeiros homens de bem, ou verdadeiros espíritas e cristãos.

“Ao contrário de outras correntes religiosas, que têm caráter salvacionista, a Doutrina Espírita, com seu tríplice aspecto – científico, filosófico e religioso – pretende promover a evolução do homem, que é um processo pedagógico (…) Se o Espiritismo é uma síntese cultural, abrangendo todas as áreas do conhecimento, seu ponto de unificação é justamente a Pedagogia” (Incontri, 2008:193).

Pela visão clara da origem dos males e pela solução que oferece aos problemas que enfrentamos, o Espiritismo tem a missão de regenerar o homem, não só no âmbito individual, mas coletivo.

E a Educação Espírita, nas palavras de J.Herculano Pires, “é o processo de orientação das novas gerações de acordo com a visão nova que o Espiritismo nos oferece da realidade. A realidade compreende o mundo e o homem. Para o homem viver com proveito no mundo, deve saber (…) o que é ele próprio e qual o seu destino. Para que o mundo não aturda o homem é preciso que o homem saiba o que é o mundo.”

(1985:20)

Eduquemos os homens para o bem e certamente teremos uma sociedade moralizada, pronta para enfrentar todos os desafios que ainda virão, fortalecida pela verdadeira fé que o Cristo nos ensinou: “Porque, na verdade, vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há de passar, e nada vos será impossível.” (Mateus, XVII:20)

ALEXANDRA STRAMA

Bibliografia

AUTORES DIVERSOS. Curso O que é o Espiritismo. São Paulo: Feesp, 1ª ed., 2011.

CAMARGO, Pedro de. O Mestre na Educação.

FRANCO, Divaldo Pereira. Após a Tempestade. Transição Planetária..

INCONTRI, Dora. A Educação Segundo o Espiritismo

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. São Paulo: Feesp, 1ª ed., 2011. – . O Evangelho Segundo o Espiritismo. São Paulo: Feesp, 9ª ed., 1993. – O Livro dos Espíritos. São Paulo: Feesp,  2ª ed., s.d. – O Livro dos Médiuns. São Paulo: Feesp, 9ª ed., 2010.

PIRES, J. Herculano. Pedagogia Espírita.
RIZZINI, Carlos Toledo. Evolução para o Terceiro Milênio

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